Chairman

Pedro Soares
dos Santos

Presidente do Conselho
de Administração

Mensagem do Presidente

Recordar 2014 é colocar em perspectiva um ano que foi particularmente exigente aos mais diferentes níveis. Ao nível do negócio da Distribuição Alimentar, em geral, ao nível do Grupo Jerónimo Martins, em particular, e também ao meu próprio nível.

De facto, foi o primeiro ano em que desempenhei as funções de Presidente do Conselho de Administração do Grupo em simultâneo com as de Administrador-Delegado, o que constituiu uma experiência nova e desafiante, e uma enorme oportunidade de aprendizagem e de crescimento pessoal, na qual contei com todo o apoio, que aqui agradeço, dos restantes membros do Conselho.

No entanto, esta circunstância individual esteve longe de ser quer a única novidade quer a mais relevante. A intensidade da deflação que atingiu a economia europeia – superior à que esperávamos – não poupou Portugal nem tão-pouco a Polónia, que acabou por viver, pela primeira vez desde que iniciámos actividade no país, uma situação de deflação alimentar, agravada ainda pelos efeitos sobre as exportações alimentares resultantes da crise na Ucrânia e do agravamento da tensão entre a União Europeia e a Rússia.

A deflação alimentar atingiu a economia polaca (-0,9% na média do ano), e o nosso sector, depois de mais de dois anos de desaceleração da inflação. Inevitavelmente, isto gerou uma combinação perigosa: queda do valor das vendas (com os volumes a registarem aumentos), inflação ao nível dos custos (designadamente de electricidade e salários) e um ambiente competitivo muito intenso. Ou seja, margens sob forte pressão.

No entanto, numa economia que continua a crescer, em que a taxa de desemprego mostra tendência descendente e os salários aumentam todos os anos, com deflação e uma dinâmica de mercado fortemente concorrencial, o consumidor tem cada vez mais rendimento disponível e o consumo privado continuará a subir. Isto significa que o potencial de crescimento que vemos no mercado polaco continua intacto.

Para capturar esse potencial, a Biedronka sempre colocou a expansão, rápida e eficiente, como a sua prioridade. Foi assim que, apenas nos últimos três anos (2012-2014), somámos mais de 700 lojas à cadeia. Em 2014, abrimos 211 lojas Biedronka (eram 2.587 a 31 de Dezembro) e três novos Centros de Distribuição, que nos permitiram encerrar o ano com um total de 15 regiões logísticas.

A sólida dimensão que atingimos permite-nos, por isso e desde já, colocar o nosso foco sobretudo no crescimento das vendas totais e comparáveis (like-for-like), mais do que no crescimento da área de vendas, que continuará a aumentar naturalmente à medida que nos aproximamos do nosso objectivo das 3.000 lojas ainda que a um ritmo diferente (entre 2015 e 2017 abriremos, pelo menos, mais 300 lojas).

Queremos tirar o máximo partido do nosso actual parque de lojas, o que implica investir na melhoria global da nossa oferta ao mesmo tempo que investimos no reforço da liderança de preço da Biedronka no mercado polaco, onde os discount continuam a ser o principal motor de crescimento do Retalho Alimentar Moderno.

Sabemos muito bem que nunca poderemos comprometer o posicionamento de preço da nossa cadeia, mas também sabemos que, na Polónia de hoje, o preço, por si só, já não é suficiente para conquistar a preferência e a lealdade dos consumidores.

Do sortido à experiência global de compra, é preciso introduzir mais inovação e garantir que a Biedronka se mantém relevante e atractiva para os mais de 1.250 milhões de visitantes anuais das suas lojas. Por forma a assegurar que continuará, no futuro, como em 2014, a liderar os ganhos de quota de mercado no retalho alimentar da Polónia.

Não faremos disrupções ao nosso formato de loja actual nem ao nosso modelo de negócio, que se mantém absolutamente válido. Desde 1995, investimos mais de três mil milhões de euros a construir uma rede de infra-estruturas de elevada qualidade e uma presença forte e muito capilar a nível nacional, que continuaremos a reforçar com novas aberturas, cada vez mais focadas nas grandes cidades polacas onde temos ainda muitas oportunidades de crescimento.

Para isso, precisamos de assegurar as melhores localizações e fazer um upgrade geral à nossa proposta de valor, enquanto reforçamos a disciplina de custos que nos permite mantermo-nos na linha da frente da liderança ao nível dos preços.

Para o nosso Grupo, a Biedronka continuará a ser a prioridade número um em termos de investimento, que, no seu caso, ascenderá a montantes da ordem dos 700 a 800 milhões de euros no período entre 2015 e 2017.

Em Portugal, 2014 foi um ano em que a deflação alimentar média se situou nos 1,3%, com especial incidência no segundo e terceiro trimestres. Esta variável tornou ainda mais complexo o desafio do Pingo Doce e do Recheio, que tiveram desempenhos robustos e acima dos respectivos mercados.

No ano, em resultado da sua estratégia comercial, o Pingo Doce aumentou as suas vendas em 1,7% e conseguiu um desempenho like-for-like de 1,2% (excluindo combustível), o que é muito positivo sobretudo tendo em conta a forte intensidade promocional e os níveis de deflação registados. Além disso, a Companhia somou cinco novas lojas à sua rede (quatro das quais geridas por terceiros) e, no âmbito da implementação do seu plano de reorganização logística, inaugurou um Centro de Distribuição no sul de Portugal, que lhe permitirá ganhar eficiência e qualidade no serviço às lojas na região, especialmente no que diz respeito aos produtos frescos.

Num ano em que o canal HoReCa estabilizou e o Retalho Tradicional continuou em queda, as vendas do Recheio aumentaram 1,5% em volume, com a deflação alimentar a assumir-se como a principal responsável pelo decréscimo em 0,7% das vendas em valor.

Relativamente aos novos negócios do Grupo, a Hebe concentrou-se, em 2014, na sua organização interna, tendo aberto 18 lojas e um Centro de Distribuição adaptado às suas necessidades e facturado 87 milhões de euros. A entrada, já no segundo semestre, de um novo Director-Geral, com elevada expertise no negócio da beleza, promete novidades que anunciaremos em 2015.

Na Colômbia, a Ara apresentou um desempenho que reforça a nossa convicção de estarmos perante um sólido pilar de crescimento futuro para o Grupo Jerónimo Martins. Com vendas na ordem dos 66 milhões de euros, a nossa cadeia colombiana teve um ano de aprendizagem rápida, encerrando 2014 com 86 lojas no Eixo Cafeteiro (50 abertas em 2014) e as obras de construção do segundo Centro de Distribuição, este na região da Costa do Caribe, já iniciadas.

Em linha com a Política Corporativa de Compras Responsáveis e de Apoio às Comunidades Envolventes das zonas de operações, em 2014, mais de 95% dos produtos de Marca Própria comercializados pelas lojas Ara foram produzidos na Colômbia.

Em termos globais, o EBITDA consolidado fixou-se nos 733 milhões de euros (78,2% dos quais gerados pela Biedronka) e as vendas do Grupo aumentaram em 851 milhões de euros (+7,2% face a 2013) para os 12,7 mil milhões de euros. O crescimento das vendas foi muito suportado pela expansão, que absorveu 292 milhões de euros de investimento (cerca de 62% do total no ano), e também pelos crescimentos comparáveis (like-for-like) ao nível dos volumes em todas as insígnias.

A deterioração registada ao nível da margem EBITDA – de 6,6% em 2013 para 5,8% em 2014 – reflecte uma combinação de factores de pressão: a exigência das condições de mercado, a pressão acrescida que a forte deflação alimentar trouxe para o ambiente económico que se viveu no ano que passou em Portugal e na Polónia, os 58 milhões de euros canalizados para os novos negócios (Hebe e Ara) e a dificuldade em diluir nas vendas a inflação ao nível dos custos, designadamente salariais e de electricidade, sobretudo na Biedronka. Em consequência, os resultados líquidos atribuíveis a Jerónimo Martins caíram 21,1% para os 302 milhões de euros.

Não obstante ser objectivamente um resultado sólido, não escondo que considero que teremos de ser capazes de fazer melhor em 2015, sobretudo na Polónia.

Aos accionistas de Jerónimo Martins agradeço a confiança demonstrada na gestão do Grupo e na minha liderança. Às demais partes interessadas, reafirmo o nosso compromisso de continuarmos a crescer de forma responsável e a criar valor para as sociedades onde desenvolvemos os nossos negócios. Mantendo o foco onde ele nunca poderá deixar de estar: no melhor serviço possível ao consumidor.

Pedro Soares dos Santos
20 de Fevereiro de 2015